Um novo conceito em publicações científicas

A Bíblia como literatura
On abril 18, 2019 | 0 Comments

por Jefferson Ramalho

É possível ler e interpretar o texto bíblico como obra literária, sem considerar o caráter sagrado que lhe é atribuído por vertentes religiosas das tradições judaico-cristãs? Não tenho dúvida de que é perfeitamente possível e até necessário.

O problema, ao que parece, é que mentes mais conservadoras têm medo de fazer isso. Estão presas a interpretações ultrapassadas, já que ignoram contextos históricos e literários das dezenas de livros que compõem tanto a Bíblia Hebraica como o chamado Novo Testamento.

Escrevo sobre isso porque gosto de ler livros a respeito da Bíblia que dialogam de maneira coerente e científica com áreas diversas, tais como a Crítica Literária, a Arqueologia e as Ciências Sociais, por exemplo. Quando eu leio certas apologias sendo propagadas por certos teólogos, líderes cristãos e até políticos que afirmam identificar-se com princípios morais bíblicos, segundo eles, intocáveis, inegociáveis e imutáveis, logo percebo que, infelizmente, são pessoas que nunca leram sequer uma obra que faça uma leitura criteriosamente crítica e interdisciplinar da chamada Bíblia Sagrada.

Antes, estes apologistas se reduzem àquelas mesmas leituras de comentários meramente teológicos da Bíblia, com base em critérios hermenêuticos superados há décadas pela Filosofia, pela já citada Crítica Literária e por outras áreas que, de um modo ou outro, se dedicaram à compreensão séria dos textos bíblicos enquanto produções culturais de épocas sobremaneira distantes da nossa.

Para exemplificar o caráter interdisciplinar sugerido, menciono a possibilidade de estudo comparativo de textos tidos pelos cristãos mais tradicionais como canônicos, oficiais e até divinamente inspirados com outras formas de documentação, tais como representações imagéticas dos primeiros séculos contidas em catacumbas romanas, com outros textos não reconhecidos pela tradição cristã, mas que pertenciam a algumas comunidades cristãs dos primeiros séculos, além da necessidade de se problematizar e se questionar as datações situadas no primeiro século a todos os livros do Novo Testamento. A crítica textual desses documentos nos permitem reconhecer que muitas passagens foram acrescentadas séculos depois, ou mesmo que alguns textos decerto foram produzidos mais tardiamente, e não exatamente no primeiro século.

Quando nos deparamos com resultados de pesquisas de anos realizadas por estudiosos e estudiosas do Brasil e do exterior, em especial estudos do chamado Cristianismo Primitivo, tanto com base nas fontes literárias como em documentações materiais, constatamos o quanto grande parte dos estudos teológicos permanece atrasada, sem cientificidade e muito mais interessada na manutenção de um discurso superficial e acrítico, pois tem medo de assumir e de reconhecer as constatações destes estudos mais sérios e, ao que parece, de transmitir tais descobertas para as suas respectivas comunidades de fé.

Por fim, destaco que essa postura que ignora importantes constatações resultantes de análises científicas sérias da literatura bíblica, evidencia que teólogos e líderes cristãos estão apenas comprometidos com o engessamento do que eles insistem em chamar de Palavra de Deus, a saber, um mero conjunto bibliográfico da Antiguidade. Se eles se abrissem para as releituras que pesquisas recentes têm obtido como resultado e compartilhassem, mesmo que de uma maneira simplificada com as suas comunidades de fé algumas dessas relevantes constatações científicas, as igrejas seriam mais maduras, coerentes e menos sujeitas e passivas diante de interpretações distorcidas e exegeticamente frágeis, o que acaba dando abertura para que muitas posturas de ódio, intolerância, preconceito e até a negação das diversidades prevaleçam entre aqueles que se dizem anunciadores do amor tão ensinado por um certo homem chamado Jesus de Nazaré, do qual eles juram que são seguidores fiéis.

Mas, quem sabe, esta ignorância do povo faça parte do projeto de seus respectivos líderes, não é mesmo?

Jefferson Ramalho

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