Um novo conceito em publicações científicas

Doutrinação e Desconstrução
On junho 12, 2019 | 0 Comments

por Jefferson Ramalho

Aprendi cedo, sobretudo já nos primeiros meses de graduação, com bons professores que tive, que a sala de aula é o ambiente do diálogo, por vezes do debate, da crítica, da reflexão e da problematização. Uma sala de aula sem estes elementos é morna, ou mesmo fria, sem vida, sem sabor, sem razão de existir. Nenhuma turma escolar cresce quando não há abertura para questionamentos e desconstruções de tabus e de tradições engessadas e emboloradas pelo tempo.

Jacques Derrida, intelectual argelino do século XX, ficou conhecido por sua proposta filosófica chamada Desconstrução. Tal proposta pode e deve ser aplicada em todo exercício crítico, seja ele de fontes ou de fatos, de discursos narrativos literários ou imagéticos, de documentos e de práticas tidos como sagrados ou como profanos. Academia que se preze submete cada objeto de investigação ao crivo da crítica.

Hoje, por meio das relações de poder, tem se disseminado a hipótese de que o exercício crítico em ambientes escolares e universitários não reflete a importância do que chamamos a partir de Derrida de Desconstrução, mas denota uma tentativa de Doutrinação de estudantes. Tendências mais conservadoras, sem instrumentos coerentes e suficientes para travar um diálogo sério, atualizado e científico acerca de questões diversas, perceberam que a única saída seria convencer os iniciados a acreditarem que toda forma de reflexão crítica deve ser sempre considerada uma prática de Doutrinação.

Tais pessoas em fase inicial de suas trajetórias, ou mesmo de ciclos de formação, não percebem, infelizmente, que elas sim foram doutrinadas a sempre julgarem uma aula problematizante como sendo uma tentativa de doutriná-las. Não sabendo discernir entre o que têm chamado de Doutrinação e o que na Academia chamamos de Crítica Desconstrucionista, seja esta aplicada à Literatura, à História, às Ciências Humanas ou até mesmo Exatas de um modo geral, tornaram-se verdadeiros soldadinhos de princípios morais e retrógrados. São os arautos da Tradição e das Instituições, o que na prática já não passam mais de estruturas de poder que, em si mesmas, estão falidas.

Querem e fazem isso, porque não conseguem discernir ambientes, preferem uma catequese omissa, chamam de Doutrinação o que é Ensino e de Ensino o que é Doutrinação. Adestram a um só destino ao invés de mostrar os muitos caminhos possíveis. Têm medo de ser desafiados a moverem as engrenagens dos seus próprios intelectos. Preferem deixá-las paradas, por anos, enferrujando, sem utilidade. E o que é pior: têm medo do progresso intelectual, do avanço, da atualização, dos novos tempos do pensar. E quando percebem que estão afundando com suas atrasadas convicções, recorrem ao grito, à agressão, à cara feia, à violência, à elevação da voz… Sim, elevam a voz porque não possuem competência para elevar a qualidade do diálogo. Eles não sabem desconstruir, só sabem viver presos em construções edificadas há séculos ou milênios.

São passarinhos que não querem voar, porque desde muito cedo foram condicionados ao ambiente da gaiola. Acreditam que não há vida possível para eles fora dali. Ah, se eles descobrissem aonde suas asas podem levá-los! Como dizia o grande Rubem Alves: “há escolas que são asas, mas há escolas que são gaiolas.” O mesmo pensava ao se referir à religião, às estruturas religiosas, ao afirmar: “Deus criou asas, as religiões criaram gaiolas.” E quando um ser que já experimentou a beleza de voar lhes faz o convite, eles se negam e se oprimem, sem se permitir, e vivem até a morte presos em suas doutrinas.

Sim, eles foram doutrinados, pois não aceitam desconstruir as doutrinas que lhes foram incutidas como verdades absolutas, universais e irrefutáveis. Julgam a condição alheia, porque na realidade não conseguem conhecer nem a si mesmos, atendendo ao convite de Sócrates. Dessas convicções unilaterais e avessas à pluralidade de ideias e identidades, nasceram regimes totalitários, ditaduras, fascismos, exclusivismos, fundamentalismos… Sistemas que ou obrigam à aceitação de seus pilares ou matam. A ferramenta deles não é o convite à crítica, mas a tortura psicológica e, se entenderem como necessário, a tortura física. Por isso serei até morrer um adepto da Desconstrução.

foto: clip de Another Brick In The Wall (Pink Floyd)

Jefferson Ramalho

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